O Dispositivo Produz Você: Uma Verdade Incômoda Sobre Subjetividade e Poder

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Você acha que escolhe suas ações? Que sua personalidade é exclusivamente sua? Que seu caráter foi forjado pelas experiências que viveu e pelas decisões que tomou? Deixe-me contar algo que a classe dominante trabalha para você nunca compreender completamente: não é o sujeito que chega ao dispositivo; é o dispositivo que produz o sujeito. E sim, isso significa que você, provavelmente, já foi manipulado sem perceber.

I. O Que É Esse Tal de “Dispositivo” Que Ninguém Explica

Vou tentar tornar isso menos hermético do que parece. Filósofos adoram termos complicados para conceitos simples. “Dispositivo” é apenas uma palavra sofisticada para descrever estruturas que transcendem indivíduos. Você pode chamar de estruturaparadigmasistema ou máquina social — as nuances teóricas variam, mas o efeito é o mesmo: trata-se de um conjunto de regras, normas, práticas e poderes que condicionam como você pensa, age e até deseja.

Uma empresa é um dispositivo. O Estado é um dispositivo. O capitalismo é um dispositivo. O YouTube é um dispositivo. A família é um dispositivo. Cada um desses mecanismos não apenas controla seus comportamentos — eles produzem sua própria subjetividade. Moldam o tipo de pessoa que você se torna.

A questão crucial que ninguém quer enfrentar é esta: qual é o grau de liberdade real que você possui dentro dessa estrutura? E a resposta incômoda é: bem menos do que imaginamos.

II. A Ilusão da Autonomia: Como o Sistema Fabrica Sujeitos

Estamos acostumados a pensar em liberdade como autonomia individual — “eu escolho meu caminho”. Mas isso é uma mentira que o capitalismo vende com eficiência de marketing. A realidade é brutal: seu leque de escolhas possíveis já vem pré-selecionado pela estrutura em que você vive.

Pense em um político genuinamente radical que entra no sistema eleitoral com a intenção de transformá-lo. Ele começa inflamado, promessas de mudança radicais, discurso crítico ao sistema. Mas algo curioso acontece. Não de repente — não há traição melodramática — mas gradualmente:

  • No primeiro ano, enfrenta a burocracia. Aquilo que prometia fazer não consegue por causa de “procedimentos” e “limitações legais”.
  • No segundo ano, já negocia com setores que criticava, porque “é pragmatismo” e “é o jeito de fazer política”.
  • No terceiro ano, um voto dele surpreende seus próprios eleitores. Quando confrontado, ele diz: “Você não entende como funciona de verdade”.
  • No quarto ano, ele virou parte daquilo que dizia combater.

Já viram casos assim? Isso não é corrupção moral. Isso é o dispositivo funcionando perfeitamente. A máquina absorveu o sujeito. Não através de malícia consciente, mas através da lógica imanente do sistema — suas estruturas burocráticas, seus incentivos, suas formas de operação. O dispositivo não precisa de conspiradores; funciona automaticamente.

III. A Burocracia Como Instrumento de Produção Subjetiva

Você provavelmente pensa em burocracia como papelada chata. É um erro. Burocracia é o mecanismo através do qual o poder se reproduz sem depender de indivíduos específicos.

Um burocrata de nível de rua — aquele que implementa políticas públicas — não está deliberadamente sabotando um programa social por ganância pessoal. Ele está operando dentro de uma estrutura que condiciona suas ações. Discricionariedade limitada, metas conflitantes, recursos insuficientes, regras contraditórias. O sistema o constrange a tomar decisões específicas, não por ordem explícita, mas pelo simples fato de que não existem outras opções viáveis.

E isso escala. Um presidente eleito com promessas revolucionárias enfrenta a mesma coisa: estruturas burocráticas centenárias que resistem passivamente a mudanças radicais. Não através de greve ou sabotagem aberta, mas através de paciência estrutural. O sistema espera você cansar.

IV. Alienação Não É Ignorância: A Falha Crítica da Esquerda Reformista

Aqui vem algo importante que a maioria da esquerda brasileira ainda não compreendeu: as pessoas não são burras, e não é ignorância que as mantém no sistema.

Uma leitura simplista do conceito de alienação assume que o trabalhador não sabe o que está acontecendo. Que se apenas explicássemos os mecanismos de exploração de forma clara, as pessoas se radicalizariam naturalmente. É uma ilusão perigosa.

A verdade mais incômoda é que as pessoas entendem exatamente o que está acontecendo. Elas apenas fazem cálculos racionais em contextos estruturalmente desfavoráveis. Um trabalhador que precisa alimentar filhos não está “alienado” quando rejeita promessas vagas de revolução futura. Ele está sendo inteligente — protegendo o que consegue assegurar hoje contra promessas incertas de amanhã.

A alienação não é falta de conhecimento; é uma combinação de afeto, desejo e necessidade material. Você quer mudança radical. Mas também quer segurança. Quer justiça. Mas também comida na mesa. Quer um mundo diferente. Mas também não quer ser o cobaia de um experimento político.

Essa contradição não torna você burro. Torna você humano, vivendo em uma estrutura que te força a escolher entre opções ruins.

V. O Paradoxo do Transformador Transformado

Vamos a um exemplo histórico incômodo. Lula começou como líder sindical genuinamente radical. Enfrentou ditadura, organizou operários, tinha retórica inflamada. Vinte anos depois, está negociando com banqueiros e industriais. A classe dominante não o cooptou através de suborno pessoal — essa é uma narrativa de Hollywood.

O que aconteceu foi que a estrutura absorveu seu projeto. Cada concessão feita “pragmaticamente” o constrangeu para a próxima. Cada promessa não cumprida por causa de “realidades políticas” o integrou mais profundamente ao sistema. Não porque ele é fraco moralmente, mas porque o sistema foi literalmente construído para fazer isso.

A burocracia não corrói líderes radicais através de corrupção óbvia. Corrói através da paciência. Aguarda você cansar. Oferece soluções “realistas” que melhoram a situação sem transformar a estrutura. E quando você finalmente negocia uma melhoria parcial, o sistema diz: “Viu? Estou funcionando”. O povo médio olha e pensa: “Mas então o sistema não era tão mau assim”.

VI. O Pensamento Trágico: Resistência Sem Garantias

Aqui é onde precisamos fazer uma pausa importante. Porque tudo isso pode sair do realismo e entrar em pessimismo paralisante. Alguns vão ler este texto e pensar: “Então é sem saída? Não há nada a fazer?”

Errado. Há algo chamado pensamento trágico.

O herói trágico grego sabia que o destino lhe reservava fracasso. Sabia que não controlava o final da história. Mesmo assim, lutava. Não por ilusão de que venceria, mas porque a dignidade estava na qualidade da luta, não no resultado.

Isso não é pessimismo. Isso é realismo que se recusa a desistir. Significa trabalhar para mudar a estrutura sabendo que mudá-la é difícil. Significa lutar sabendo que você será condicionado pela estrutura ao mesmo tempo em que tenta mudá-la. Significa organizar-se coletivamente sem ilusão de que um indivíduo salvará o dia.

O pensamento trágico reconhece que não há garantias. Por isso mesmo a luta importa.

VII. O Problema da Simetria: Por Que Influenciadores de Esquerda Validam o Sistema

Aqui vem uma verdade que vai incomodar muita gente. Quando um intelectual de esquerda entra em “debate” com representantes da direita em plataformas que o enaltecem (YouTube, podcasts com milhões de visualizações), algo específico acontece:

Produz-se uma simetria enganosa.

Se o crítico do sistema prospera dentro do sistema — ganha seguidores, monetização, influência, respeitabilidade na mídia — qual é exatamente a mensagem que chega ao público? “Viu? Você critica o sistema e fica rico. Então o sistema permite desafio.”

E isso é parcialmente verdade. O capitalismo permite crítica — desde que a crítica seja rentável e não ameace as estruturas reais de poder. A crítica se torna espetáculo. A resistência se torna produto.

Por isso prolifera a teologia da prosperidade e os coaches: o público deseja saber o “itinerário para se dar bem”. Se alguém crítico do capitalismo está prosperando, é porque descobriu um segredo, um hack, uma rota de fuga. Então as pessoas seguem buscando atalhos pessoais em vez de transformação coletiva.

VIII. Como Então Agir? Nem Puro, Nem Ingênuo

A conclusão não é “desista, tudo é determinado”. A conclusão é mais sutil e exige maior inteligência: você deve agir sabendo que será constrangido pela estrutura ao mesmo tempo em que tenta transformá-la.

Isso significa:

  • Aprender as regras do jogo que você critica. Não para aderir completamente, mas para saber onde estão as fraturas, os espaços de potência.
  • Reconhecer sua própria condição de sujeito produzido pelo dispositivo. Você não é salvação, não é especial, não escapará ao condicionamento apenas por ser bem-intencionado. O primeiro passo da lucidez é admitir isso.
  • Lutar coletivamente, não sob heróis individuais. Porque heróis individuais são inevitavelmente absorvidos. Movimentos coletivos, estruturas descentralizadas, processos sem lideranças personalistas — essas têm ao menos uma chance de resistir à absorção.
  • Aceitar que não há garantias. Mas lutar mesmo assim. Porque a vida já é trágica; pelo menos você pode escolher lutar dentro da tragédia.

Conclusão: Você Foi Produzido. E Agora?

O incômodo dessa análise é que ela nega tanto a ilusão de liberdade total quanto a tentação do fatalismo. Você não é absolutamente livre, mas também não é absolutamente determinado. Você foi produzido pelo dispositivo, mas ainda há brechas, fraturas, espaços onde outras formas de subjetividade podem emergir.

O trabalho então não é sair do sistema — impossível — mas trabalhar nas bordas, nas fraturas, nos limites do dispositivo. Lutar sem ilusão. Organizar-se sem salvadores. Transformar mesmo sabendo que a transformação será parcial, incompleta, provavelmente será absorvida de alguma forma.

A dignidade não está na vitória garantida. Está na recusa de render-se à lógica do dispositivo, mesmo sabendo que o dispositivo sempre vencerá parcialmente.

Alguns vão chamar isso de derrotismo. Mas quem chama de derrotismo é quem ainda acredita em garantias. Nós apenas crescemos o suficiente para viver sem elas.


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