O Deus do Natal Roubado: Quando a Igreja Virou Loja

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Deixe-me contar algo que você já sabe, mas nunca coloca em palavras claras: existe uma separação abissal entre o Deus que nasceu em uma manjedoura e o Deus que os shopping centers vendem em dezembro.

Quando você entra em um shopping para “celebrar o Natal”, você está participando de um dos roubos mais brilhantes da história. Não é roubo de dinheiro, exatamente. É roubo de significado. É apropriação de narrativa. É transformar a história de um homem que criticava severamente os ricos em propaganda para que você vire consumidor endividado.

Nesta época do ano, quando você estiver meditando sobre o estado das coisas, uma verdade incômoda merece ser dita: nós transformamos o aniversário daquele que pregava contra a ganância em uma competição de quem gasta mais.

Que ironia magnífica.

O Jesus Que Foi Censurado

Digamos o óbvio: Jesus não era ambíguo sobre dinheiro. Ele não sussurrava e deixava interpretações vagas. Ele era direto, quase brutal.

“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.”

Pense nisso. Não é “difícil”, não é “desafiador”. É impossível. Não há margem de negociação aqui. Nem há espaço para os pregadores de hoje com sua teologia da prosperidade – aquela narrativa de que Deus quer você rico e motorizado.

Mas há mais. Jesus criticava explicitamente a acumulação. “Não ajuntem para vocês riquezas na terra, onde traça e ferrugem corroem e onde ladrões arrombam e roubam”. A mensagem é clara: gastar sua vida acumulando coisas é definhar a alma.

Vejamos a cena do templo. Jesus não chegou conversando, não propôs um seminário sobre economia ética. Ele veio com raiva santa. Derrubou as mesas, expulsou os cambistas, disse que transformavam a casa do Pai em mercado. A imagem de Jesus como um cara mansa, pacífico, amiguinho de todos? É mentira. Ele tinha ódio institucionalizado.

E qual era a instituição que odiava? A que lucrava com a fé dos pobres. A que explorava quem vinha buscar conexão com o sagrado.

Os Evangelhos Como Ferramenta de Libertação

Há um pendor na história que os poderosos não gostam de discutir. Jesus nasce entre os marginalizados. Sua primeira audiência não eram escribas e fariseus ricos. Era gente comum. Pescadores. Coletores de impostos. Prostitutas. Leprosos. Pessoas que o sistema social descartava.

As bem-aventuranças dele não promovem sucesso capitalista. Elas dizem: “Bem-aventurados os pobres, porque o Reino de Deus lhes pertence.” Não é uma consolação espiritual para sofrimento material. É uma inversão política de poder. O Reino de Deus, segundo Jesus, pertence aos pobres. Não aos ricos. Aos pobres.

Essa virada de realidade, a ideia de que a ordem presente é injusta e será invertida, assusta a classe dominante. Por isso transformaram Jesus em um mascote de parede de igrejinha doméstica. Quadrinhos bonitinhos. Medalhinhas. Historietas para crianças.

Se Jesus aparecesse hoje com a mensagem original, seria deportado como agitador político ou metido em um hospício.

Há pensadores que compreenderam a radicalidade dessa mensagem. Gente que olhou para os textos e viu não um consolo espiritual, mas um chamado para transformação social. Viram em Jesus não um restaurador da ordem, mas um revolucionário. Essas pessoas construíram algo chamado teologia da libertação – uma leitura do evangelho que diz: o sofrimento dos pobres não é vontade de Deus, é resultado de injustiça humana, e vocês têm a responsabilidade de mudar isso.

O Vaticano não gostou. Muitos bispos não gostaram. Por quê? Porque teologia da libertação significa que a fé não é sobre aceitar a sorte. É sobre transformar a realidade.

A Captura: Como o Sistema Domesticou a Subversão

Agora vem a parte onde temos que ser honesto sobre como a coisa toda foi cooptada.

Os poderosos aprenderam uma lição crucial: você não mata a mensagem, você a neutraliza. Você tira a potência dela. Você a transforma em commodity. Você vende de volta para as mesmas pessoas que ela crítica.

O capitalismo é especialista nisso. Ele é um sistema de absorção. Pega tudo que é perigoso e converte em mercadoria. A subversão vira logo em uma camiseta. A crítica vira um produto.

Então o que acontece com Jesus? Acontece isso: sua mensagem é abstraída. Fica “espiritual”, desconectada da realidade. Os evangelhos falam de um Deus que escuta o grito dos oprimidos? Tudo bem, vamos rezar. Os evangelhos criticam severamente os ricos? Tudo bem, vamos dar uma moeda para um mendigo na porta da feira e nos sentir salvos.

É magia social. Transformam a exigência revolucionária em gesto caritativo. Transformam a demanda por justiça estrutural em esmola individual.

E o Natal? O Natal é o laboratório perfeito dessa domesticação.

O Natal Capitalista: Um Estudo em Subversão Reversa

Pense no que aconteceu. Uma história de nascimento em pobreza, rejeição, marginalidade transformada na maior festa de consumo do ano.

O messias nasce rejeitado, sem lugar para descansar. Que lindo significado para ensinar às crianças. Mas o Natal de verdade? É um festival de shopping centers. É endividamento familiar. É pressão sobre trabalhadores pobres para gastar dinheiro que não têm comprando coisas que ninguém precisa.

Examine a estrutura. O capitalismo precisa que você tenha esperança falsa de que consumir o tornará feliz. Precisa que você veja os ricos em propagandas tomando champanhe e dirija seu desejo para aquele estilo de vida. Precisa que você se meça pela quantidade de coisas que possui e que você vê nos outros.

E o Natal? É a arma perfeita. É uma data sagrada, respaldada pela religião, que virou máquina de criar desejos. Todo ano a engrenagem se movimenta. Publicidade massiva. Dívidas contraídas. Ansiedade de quem não pode gastar. Culpa de quem trabalha e ainda assim não consegue dar “presentes dignos”.

O Jesus pobre que criticava a ganância? Está lá na placa decorativa da parede, sorrindo enquanto você financia a dívida do seu crédito.

É quase genial, se você conseguir rir disso.

A Contradição Viva

Aqui está a coisa mais perturbadora: sabemos disso. Você sabe disso. Eu sei disso. A maioria das pessoas sabe disso.

Mas a estrutura é tão poderosa que você faz de qualquer forma. Você entra na loja consciente de que está sendo manipulado. Você vê o preço absurdo e ainda assim compra. Você conhece a contradição entre os valores cristãos e o consumismo e ainda assim participa.

Por quê? Porque a alternativa é estar sozinho. É ser o chato que não participa. É ser aquele que recusa o jogo enquanto todos os outros estão nele.

O sistema é cruel de uma forma muito específica: ele torna praticamente impossível estar totalmente fora. Você respira no ar do capitalismo. Você come comida produzida por ele. Você se comunica através de tecnologia que ele criou.

Então o que você faz?

A honestidade, para começar. A honestidade sobre o que está acontecendo. Não a negação de que “tudo bem, é só um jogo inocente de Natal”. Não a purificação de que “eu celebro o sentimento espiritual de Jesus, não o consumismo”. Ambas são mentiras que você conta para dormir melhor.

A questão real é: você entende as estruturas que criam esse absurdo e está fazendo o quê sobre elas?

O Que Fazemos Com Isso

Essa é a pergunta que importa. Porque o Traidor da Classe não oferece purificação moral. Ele oferece lucidez.

Aceitar a realidade da incoerência é o primeiro passo. Sim, você vai participar do sistema. Sim, você provavelmente vai comprar presentes de Natal. Não, você não é uma pessoa ruim por fazer isso. Você está navegando uma realidade estrutural que foi construída para capturar você.

Mas você pode fazer três coisas:

Primeiro, parar de se iludir. Parar de disfarçar o consumismo de celebração espiritual. Parar de pensar que uma ação de caridade pequena compensa sua participação em um sistema explorador. Isso não funciona assim.

Segundo, compreender que a mudança que importa não é individual. Não é suficiente você ser “consciente”. Não é suficiente você dar um presente mais barato ou doado. Não é suficiente você se sentir espiritualmente superior por recusar a competição de Natal. A mudança que importa é coletiva. É política. É sobre transformar as estruturas que tornam o sistema possível.

Terceiro, levar a sério a mensagem original. Não a versão domesticada. A mensagem de Jesus era uma mensagem de coletividade. De partilha de recursos. De recusa à hierarquia de riqueza. De solidariedade radical com os marginalizados. De crítica sem concessões aos explorados.

Isso não é pós-moderno. Não é relativo. Não é aberto à interpretação. É uma posição política clara.

O Deus Que Continua Pobre

Aqui está o incômodo: o Jesus dos Evangelhos não desapareceu. Ele continua aí, nas páginas de um livro que as pessoas carregam na Igreja e ignoram no resto da semana.

Seu ensinamento continua radical. Sua crítica continua válida. Sua solidariedade com os pobres continua uma condenação direta do sistema em que vivemos.

O Natal roubado não apagou nada. Apenas escondeu a radicalidade sob papel de presente e música natalina.

Para aqueles dispostos a olhar, o Jesus revolucionário continua aí. A mensagem continua gritando sobre injustiça. A história continua apontando para uma sociedade organizada diferente.

Não na próxima vida. Agora.

Você pode celebrar o nascimento de um deus ao mesmo tempo em que perpetua o sistema que Jesus vinha denunciar. Muitas pessoas fazem exatamente isso, ano após ano.

Mas você também pode escolher encarar a contradição. Não como culpa paralisante. Como combustível para compreensão.

E talvez – só talvez – isso te mude mais do que qualquer presente poderia.

Feliz Natal. Ou não. Depende de para quem você está celebrando.

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