A Mentira que Você Ama: O Mito do Indivíduo Excepcional

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Vocês se acham especiais? Únicos? Donos de uma essência que os distingue dos demais? Essa é a história que nos contam desde crianças — você é excepcional, tem uma personalidade única, uma alma que é só sua. É bonito, reconfortante e completamente falso.

O sistema adora essa mentira porque ela esconde uma verdade inconveniente: você não é quem você acha que é. Você é um produto. Um produto das relações que estabeleceu, dos lugares onde esteve, das pessoas com quem conviveu. Não existe nenhuma fagulha divina dentro de você que o torne especial. O que existe é um sujeito moldado por forças sociais que você mal percebe.

A Herança Cristã que Ateus Repetem

Essa ideia de excepcionalidade individual vem de longe. É herança de uma educação cristã que nos ensinou a acreditar em almas, essências, destinos individuais. O curioso é que mesmo quem se diz ateu, quem se proclama materialista, continua repetindo essa ladainha. “Eu sou eu”, dizem com orgulho. “Eu escolho quem sou.”

Não, você não escolhe. Você é escolhido. Pelas circunstâncias onde nasceu, pela classe social que herdou, pelas oportunidades que teve ou não teve. O lugar onde você está determina quem você é. Essa é a parte que ninguém quer ouvir porque estraga a fantasia da autodeterminação.

O pensamento liberal se alimenta dessa ilusão. Se você acredita que é excepcional, que suas conquistas são fruto apenas do seu esforço individual, então aceita naturalmente que quem não “venceu” simplesmente não se esforçou o suficiente. É assim que o sistema justifica a desigualdade — transformando questões estruturais em falhas pessoais.

O Conteúdo Não Existe Sem a Forma

Aqui vai outra verdade desconfortável: não importa o que você diz, importa onde você diz. O pensamento contemporâneo sobre comunicação nos ensinou isso há décadas, mas continuamos agindo como se as ideias flutuassem livres, descoladas dos contextos onde aparecem.

O meio é a mensagem. Essa frase de um pensador canadense do século passado nunca foi tão atual. Quando você pega um conteúdo crítico e o apresenta num formato palatável para consumo rápido, aquele conteúdo muda de natureza. Não importa se você está lendo o texto mais revolucionário do mundo — se está lendo num feed entre anúncios de tênis e vídeos de gatinhos, aquele texto já não é o mesmo.

Mas a galera que se diz crítica, que se proclama contra o sistema, insiste em ignorar isso. Acham que basta “levar a mensagem” para os espaços do inimigo e pronto, missão cumprida. Não percebem que as condições materiais onde você comunica algo transformam esse algo. É como tentar fazer crítica anticapitalista num evento patrocinado por bancos — a contradição não está só no discurso, está na própria estrutura da situação.

Essa é a lógica conteudista: acreditar que o que você diz importa mais do que como e onde você diz. É conveniente porque permite que você se sinta politizado sem precisar mudar nada de fundamental. Você vai ao painel, solta suas frases de efeito, volta para casa achando que fez a revolução. Mas a estrutura que permite aquele painel existir continua intacta, e você acabou de legitimá-la com sua presença.

Você Não É Quem Você Pensa Que É

Vamos falar sério sobre formação de identidade. No século passado, diversos pensadores — e não, não vou usar os nomes técnicos porque vocês não precisam decorar jargão para entender a realidade — demonstraram que o “eu” não nasce pronto, ele é construído na relação com os outros.

Você não tem uma essência que existe independentemente do mundo. Você se torna quem é através das relações que estabelece. É na interação com outras pessoas, com instituições, com estruturas sociais, que você vai sendo moldado. Aquilo que você chama de “personalidade” é na verdade um conjunto de respostas aprendidas, de padrões internalizados, de normas sociais que você nem percebe que segue.

Isso significa que dependendo do lugar social onde você está, você será uma pessoa diferente. Não no sentido superficial de “comportar-se diferente” — você literalmente será alguém diferente porque o contexto molda quem você é. Não existe “eu” sem socialização.

Mas o sistema precisa que você acredite no contrário. Precisa que você ache que conquistou tudo sozinho, que suas vitórias são só suas, que seus fracassos também são. Assim fica fácil justificar por que alguns têm tudo e outros não têm nada. “Eles se esforçaram mais”, “eles foram mais inteligentes”, “eles mereceram”. Como se mérito existisse num vácuo, descolado das condições materiais que tornam o sucesso possível ou impossível.

A Regulação Como Antecipação

Já que estamos falando de ilusões, vamos tocar em outra: a ideia de que podemos “impedir” certas tecnologias de existir. Algumas coisas simplesmente vão acontecer, queiramos ou não. A manipulação genética, por exemplo. Ela já existe, já está sendo desenvolvida, já está criando possibilidades que nos fazem desconfortáveis.

Você pode fingir que não está acontecendo. Pode fechar os olhos e gritar que “isso é errado”, que “isso não deveria existir”. Mas vai existir de qualquer forma. E quando você se nega a discutir regulação porque acha a própria existência da tecnologia imoral, está apenas deixando que outros decidam as regras do jogo sem você.

É a mesma coisa com inteligência artificial criando imagens. A tecnologia existe. Vai ser usada. A pergunta não é “deveria existir?” — essa já foi respondida pelo simples fato de existir. A pergunta é: como vamos regular isso? Quem vai pagar pelos bancos de imagens usados para treinar essas máquinas? Como protegemos os criadores humanos cujo trabalho alimenta esses sistemas?

Mas tem gente que prefere gritar “não pode usar!” do que sentar e pensar em regulação inteligente. É confortável ocupar uma posição moral absoluta. É difícil reconhecer que a realidade é mais complicada, que você precisa jogar o jogo imperfeito da negociação política para tentar extrair algo menos destrutivo de uma tecnologia que vai existir de qualquer forma.

O pragmatismo aqui não é covardia — é reconhecer que você não controla o desenvolvimento tecnológico, mas pode tentar influenciar suas regras. Quem se recusa a fazer isso por purismo ideológico só está abrindo espaço para que o mercado decida tudo sozinho. E aí sim, vamos todos nos ferrar.

O Que Significa “Ser Crítico” de Verdade

Por último, vamos conversar sobre crítica. Porque tem muita gente por aí se autodenominando “crítico” sem fazer crítica nenhuma. E não, não estou falando de atacar pessoas — estou falando de fazer o exercício intelectual de examinar estruturas, questionar pressupostos, pensar contra o senso comum.

Fazer crítica demanda estudo. Demanda leitura. Demanda rigor. Você não precisa ter diploma para isso — alguns dos pensadores mais interessantes que conheço não pisaram numa universidade. Mas você precisa fazer o trabalho. Precisa ir atrás, ler quem pensou antes de você, construir um repertório que permita que você analise o mundo de forma mais complexa que repetir chavões.

O problema é quando alguém que não faz esse trabalho se apresenta como crítico. Quando resume crítica a reclamação. Quando confunde análise estrutural com opinião pessoal. Isso não é crítica, é conversa de bar. E tudo bem ter conversa de bar — não estou dizendo que todo mundo precisa ser intelectual. Mas não chame de crítica o que não é crítica.

Chamar qualquer coisa de crítica esvazia o conceito. E adivinhem quem se beneficia disso? Os grandes grupos de mídia, as corporações, os detentores do poder. Eles adoram quando “crítica” vira só mais um produto de entretenimento, mais uma opinião na timeline, mais um hot take sem consequência. Porque aí a crítica real, aquela que incomoda, fica diluída no ruído.

Então se você quer ser crítico de verdade, comece reconhecendo que não existe indivíduo excepcional, que você é produto do contexto onde está, que o meio transforma a mensagem, que a regulação é mais útil que a indignação moral e que fazer crítica é trabalho pesado que exige mais que boa vontade.

Já que estamos aqui jogando esse jogo torto, pelo menos vamos jogar sabendo as regras reais, não as que nos contaram para nos manter comportados.

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