SÉRIE: EDUCAÇÃO FINANCEIRA SEM ILUSÕES: Uma jornada pela realidade do dinheiro no Brasil
Deixa eu ser claro desde o início: você não nasceu sabendo que cartão de crédito é uma armadilha de juros estratosféricos. Você não nasceu acreditando que “dinheiro é raiz de todo mal” ou que “quem fica rico rouba”. Você aprendeu essas coisas observando.
Enquanto comia na mesa com seus pais, enquanto ouvia conversas no fim de semana, enquanto via reações às contas do mês chegando. Cada gesto, cada silêncio, cada palavra sobre dinheiro foi gravada em você como um código genético psicológico que você passa a vida inteira repetindo sem saber por quê.

O Silêncio também Ensina
A maioria dos lares brasileiros tem uma coisa em comum: dinheiro é assunto tabu. Fala-se de futebol, de política, de novela. Mas sobre dinheiro? Raramente. E sabe o que o silêncio comunica? Medo. Vergonha. Que é algo muito importante para se falar abertamente.
Crescer em um ambiente onde dinheiro é tabu significa que você nunca aprendeu a conversar sobre ele. Quando virou adulto e se viu com dívida, com conta vencida, com medo de abrir o extrato do banco, você descobriu que estava sozinho. Porque seus pais também não sabiam. Porque ninguém ensina.
Mas a verdade é ainda pior: aquele silêncio não era neutralidade. Era uma escolha de não-fala que perpetua o desconhecimento de geração em geração. E enquanto você não sabe, o sistema capitalista que você não compreende continua funcionando muito bem sem sua permissão, extraindo seus recursos, seus anos de trabalho, sua energia.
As Frases que Destroem Carreiras
Vou fazer uma coisa aqui: vou listar as crenças sobre dinheiro que a maioria dos brasileiros herda de suas famílias. Se você se vê em alguma delas, celebra: você identificou uma bomba-relógio psicológica.
“Dinheiro não cresce em árvore” – Essa você conhece. É clássica. E adivinha só? Ela é verdadeira e inútil. Claro que dinheiro não cresce em árvore, é óbvio. O que essa frase realmente ensina é: dinheiro é escasso e você não merece ter. Você teria que merecer através de sofrimento.
“Dinheiro é sujo” – Essa vem frequentemente de tradições religiosas, de uma herança que confunde dinheiro com corrupção. Resultado: você ganha bem, sente culpa, gasta tudo no impulsivo para se “desculpar” por ostentar. Ciclo vicioso perfeito.
“Precisamos sofrer para ganhar dinheiro” – A do trabalho sem alegria. Trabalhe até se destruir, faça sacrifícios, abdique de sua vida para ter dinheiro. Nunca combine trabalho com alegria, com liberdade, com criatividade. Combine sempre com sofrimento. Assim, quando você ganha bem, se algo não dói, significa que você não está trabalhando de verdade.
“A vida é uma luta” – A frase que encapsula todas as outras. A que justifica por que você nunca descansa, nunca se sente seguro, nunca acredita que melhore. A vida não é uma jornada, é uma guerra. Você não constrói, você sobrevive.
Essas crenças têm uma coisa em comum: elas funcionam muito bem para manter você no lugar. Elas garantem que você não acumule, não questione, não exija mais. Elas te tornam dócil diante do sistema que te explora.
A Realidade do que Você Herda
Deixa eu contar um dado que talvez você não conheça. De acordo com o governo brasileiro, em 2024, os 10% mais ricos do país ganham 13,4 vezes o que ganham os 40% mais pobres. Não é coincidência. Não é meritocracia. É estrutura.
E parte dessa estrutura é feita de crenças. Quando você herda a crença de que “dinheiro é raiz de todo mal”, você já começa a corrida 50 metros atrás. O rico, que herda a crença de que “dinheiro é poder”, começa 50 metros à frente.
A diferença não é inteligência. É herança psicológica.
Um estudo do governo federal brasileiro mostrou algo crucial: pessoas criadas em ambientes de escassez financeira desenvolvem padrões de poupança obsessiva mesmo quando ficam financeiramente estáveis. E pessoas criadas em ambientes onde consumo era válvula de escape para frustração, repetem esse padrão obsessivamente. Em ambos os casos, há sofrimento.
A questão é: quem se beneficia do seu sofrimento? Resposta: o sistema que lucra com sua ignorância sobre como ele funciona.
O Primeiro Passo: Perceber
Aqui está o que ninguém gosta de ouvir: você não é responsável pelas crenças que herdou. Seus pais as herdaram também. Essa é a natureza de uma herança — ela passa batida, invisível, como se fosse biológica.
Mas — e é um MAS importante — você é responsável pelo que faz com elas agora que sabe.
O primeiro passo não é mudar nada ainda. É apenas observar. Quando você faz uma decisão financeira, pause um segundo e pergunte: essa decisão é minha, ou é minha mãe falando através de mim? Meu pai? Meu avô? Uma sociedade que lucra com meu medo?
Esse exercício simples — não é nem difícil — já muda tudo.
Porque quando você identifica uma crença como herdada, você ganha distância dela. Ela deixa de ser verdade absoluta e vira, apenas, uma escolha que você pode questionar. “Será que é verdade que dinheiro é raiz de todo mal? Ou será que alguém lucra com medo de que eu tenha dinheiro?”
Já que você está aqui lendo isso, talvez seja hora de fazer essa pergunta de verdade.
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Próxima postagem: “O que você realmente não sabe sobre seu dinheiro (e precisa descobrir agora)”
Esta é a primeira parte da série de educação financeira do blog. Não é motivação. Não é autoajuda. É realidade. E a realidade dói, mas cura.


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