A Máquina de Moer Pobres – Entendendo os Ciclos Econômicos

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Você acha que a economia é complicada? É de propósito. A linguagem hermética dos economistas, os gráficos indecifráveis da Bloomberg, as teorias mirabolantes que ganham prêmios Nobel… tudo isso é uma cortina de fumaça. Serve para te manter no escuro, para que você não entenda a regra mais básica e brutal do jogo: a casa sempre ganha. Hoje, vamos acender um holofote nesse porão escuro com a ajuda de um guia improvável: um bilionário que, para nosso deleite, decidiu contar alguns dos segredos mais bem guardados da elite. O nome dele é Ray Dalio.

Dalio, o fundador do maior fundo de hedge do mundo, a Bridgewater Associates, passou décadas estudando a história das crises econômicas, não por curiosidade acadêmica, mas para ganhar dinheiro com elas. Em seus livros, como “Princípios” e o mais recente “Princípios para Lidar com a Ordem Mundial em Mudança”, ele desenha a grande engrenagem que move o mundo, o motor invisível por trás das manchetes de jornais e das suas dificuldades financeiras: o Grande Ciclo da Dívida (The Big Debt Cycle).

Esqueça a fantasia de um progresso econômico linear e ascendente. Isso é propaganda para te manter dócil. A realidade, como Dalio demonstra com dados de 500 anos de história, é que a economia se move em ciclos longos e previsíveis, como as estações do ano. E o motor desses ciclos é a criação e a destruição de dívida.

Dalio nos mostra que, de forma repetida e implacável, as nações passam por um ciclo que dura de 50 a 100 anos e que pode ser dividido em fases claras. Entender essas fases é como ter um mapa do futuro.

Fase 1: O Início Humilde (Pós-Guerra)

O ciclo geralmente começa após uma grande crise ou guerra, quando as dívidas foram destruídas ou reestruturadas. O dinheiro é “duro” (lastreado em ouro, por exemplo), as pessoas são conservadoras e o crédito é escasso. A sociedade valoriza a poupança e o trabalho. É uma fase de reconstrução, de crescimento real e produtivo. A desigualdade é relativamente baixa.

Fase 2: A Ascensão (A Festa Começa)

Com a estabilidade, a confiança cresce. Os bancos, incentivados pelo lucro, começam a emprestar mais. As pessoas e empresas, otimistas, pegam esse crédito para investir e consumir. A dívida começa a crescer mais rápido que a renda, mas ninguém se importa, porque os preços dos ativos (imóveis, ações) começam a subir. Todos se sentem mais ricos. É a fase em que te convencem a financiar um carro em 72 vezes e a comprar ações daquela startup que “vai mudar o mundo”. A produtividade aumenta, a inovação floresce, e parece que a prosperidade será eterna.

Fase 3: A Bolha (A Negação Coletiva)

Aqui, a festa vira delírio. A dívida cresce de forma exponencial. Os preços dos ativos atingem níveis absurdos, completamente desconectados da realidade econômica. Surgem novas formas de “inovação financeira” que, na prática, são apenas maneiras mais criativas de criar e esconder dívidas e riscos. Quem avisa sobre o perigo é chamado de pessimista, de “urubu”, de alguém que “não entende a nova economia”. Para manter a festa rolando, os bancos centrais, os “donos do bar”, começam a baixar as taxas de juros, tornando o crédito ainda mais barato e incentivando mais endividamento. A especulação se torna a principal atividade econômica, superando a produção real.

Fase 4: O Estouro (A Ressaca Brutal)

A realidade, uma credora implacável, finalmente bate à porta. Uma pequena alta nos juros, uma crise inesperada, e o castelo de cartas desmorona. As dívidas se tornam impagáveis. As pessoas e empresas começam a quebrar em cascata. O pânico se instala. Quem comprou ativos no pico da bolha, financiado por dívida, é aniquilado. O crédito, que era a força vital da economia, desaparece. É o momento em que o Sr. Mercado, nosso sócio maníaco-depressivo, tem um colapso nervoso e oferece vender tudo por uma fração do valor.

Fase 5: A Depressão e a “Bela Desalavancagem” (A Conta Chega Para Você)

É aqui que a mágica da expropriação acontece. Com a economia em colapso, os governos e bancos centrais têm poucas opções. Eles não podem deixar o sistema inteiro quebrar, pois isso levaria à anarquia. Então, eles fazem o que sempre fizeram: eles imprimem dinheiro. Muito dinheiro. Dalio chama isso de “bela desalavancagem”, um termo cínico para o processo de resgatar os ricos e transferir o custo para o resto da população.

Eles resgatam os bancos e as grandes corporações (“grandes demais para quebrar”). Inundam o sistema com liquidez para que os mercados de ativos não derretam completamente. Essa impressão massiva de dinheiro, no entanto, tem uma consequência inevitável: ela desvaloriza a moeda. O dinheiro que você, trabalhador, guardou com tanto esforço na poupança, perde poder de compra. A inflação corrói seu salário. É um imposto invisível e perverso.

Enquanto isso, quem se beneficia? Os detentores de ativos. Quem tinha imóveis, ações de empresas sólidas, ouro, e não estava afogado em dívidas, vê seu patrimônio nominal explodir de valor. A riqueza não desaparece na crise, ela apenas muda de mãos. É transferida, de forma brutal e silenciosa, de quem tem apenas sua força de trabalho e sua poupança em moeda fiduciária para quem detém os meios de produção e os ativos financeiros. A desigualdade social atinge níveis estratosféricos, criando instabilidade política e social.

Este ciclo não é um acidente. É a lógica interna do nosso sistema monetário baseado em crédito. Como Dalio mostra, ele se repetiu por séculos, do Império Romano à China dinástica, da República de Weimar à crise de 2008. É uma máquina de moer pobres e reconcentrar a riqueza a cada duas ou três gerações. Seu trabalho, sua poupança, seus sonhos… tudo é moído para alimentar o topo da pirâmide.

Compreender essa máquina não te torna um revolucionário da noite para o dia, mas te dá um mapa. Te dá uma chance de não ser completamente esmagado por ela. Te permite identificar em que fase do ciclo estamos (dica: estamos bem avançados na fase 5) e tomar decisões para proteger o pouco que você tem.

Com a teoria dos grandes ciclos em mãos, vamos, no próximo post, dissecar o nosso próprio apocalipse particular: a crise de 2008. Veremos como ela foi um exemplo clássico do estouro de uma bolha de dívida e por que suas consequências, na verdade, nunca foram resolvidas.

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