Você já parou para pensar em como certas posições políticas viraram identidades de mercado? Como ideologias que deveriam ser práxis coletiva terminam convertidas em conteúdo com “marcas registradas”, em selos de superioridade moral que você carrega nos stories do Instagram como quem coleciona Funko Pops?
Deixe-me ser cru: há uma epidemia de comunismo de vitrine infestando as redes sociais brasileiras. E não estou falando de gente sincera tentando entender e viver coletivamente fora da lógica capitalista. Estou falando daqueles produtores de conteúdo que transformaram a esquerda em um clube de identidade nerd onde você é cancelado não por ser explorador, mas porque discorda da sequência “correta” de posições políticas que esse grupo decidiu que é obrigatória.

A Transformação da Política em Identidade de Consumo
A questão fundamental aqui é: em que momento o comunismo deixou de ser um projeto de transformação radical da sociedade para virar um “estilo de vida”? Um conjunto de poses, estéticas e performances destinadas ao consumo de seguidores que buscam validação através de polêmicas bem articuladas?
Isso não é culpa de quem está lendo Marx por primeira vez. A culpa é estrutural. As redes sociais funcionam através da captura de atenção, da replicação de posts, do engajamento medido em compartilhamentos e replies hostis. Quando você posta uma crítica ao sistema capitalista enquanto ganha renda através da plataforma capitalista, você não está fazendo revolução. Você está operacionalizando uma contradição e transformando-a em capital cultural.
O problema é quando essa contradição se torna invisível. Quando o produtor de conteúdo que fatura anúncio de criptomoeda pela manhã passa a tarde cancelando um colega por este ter lido um determinado pensador que o influenciador decidiu que é “problemático”. Quando a política se transforma em preferência pessoal disfarçada de princípio.
O Dogmatismo Boutique das Redes Sociais
Existe um fenômeno específico acontecendo: a formação de bolhas dogmáticas onde a pureza ideológica tornou-se marcador de pertencimento. E isso é curioso porque reproduz exatamente a lógica que deveria ser combatida: a criação de castas intelectuais, de hierarquias de conhecimento, de uma elite que decide quem está “dentro” e quem é herege.
Vejam só: quando alguém é cancelado por ler um determinado autor que caiu em desgraça em algum microcírculo de influenciadores, o que está acontecendo é uma prática de autoritarismo travestido de consciência política. É a transformação da diferença em ameaça, da pluralidade em traição.

Essa lógica é particularmente nefasta porque exclui justamente as pessoas que mais poderiam se beneficiar dessa reflexão. Um trabalhador que chega ao comunismo pelos vídeos do YouTube não está buscando pureza. Está buscando ferramentas para compreender sua exploração. E quando ele encontra uma comunidade que diz “bem-vindo, mas você só pode ler estes autores aprovados”, ele encontra a mesma hierarquia que o explorou no trabalho.
A Preguiça Intelectual Mascarada de Virtude
A parte mais perniciosa? A construção de uma falsa humildade que mascara a preguiça. “Não leio esse autor porque ele tem problemas em tal passagem” é frequentemente uma maneira sofisticada de dizer “não tenho disposição para engajar criticamente com uma obra complexa”.
E compreendo. É realmente mais fácil julgar um livro inteiro baseado no que um YouTuber disse sobre ele do que investir tempo em devoração crítica. É mais fácil compartilhar a posição “correta” do que pensar por si mesmo sobre questões incômodas. É mais confortável estar em um grupo que valida suas escolhas do que estar sozinho com suas dúvidas.
Mas isso não é filosofia. Não é política. É conformismo travestido de radicalismo. É fazer parte de uma Igreja onde você troca padres por influenciadores e a Bíblia por uma lista de autores aprovados.
A Antropofagia Intelectual que Falta
Existe uma tradição intelectual que compreende que devorar criticamente até mesmo seus inimigos ideológicos é essencial. Que ler o seu opositor não é traição, é necessidade estratégica. Que a melhor crítica a uma ideia ruim é uma ideia melhor, não o silenciamento.
Quando um produtor de conteúdo recusa completamente engajar com o pensamento que contradiz sua posição pré-estabelecida, ele está deixando de ser intelectual. Está apenas sendo tribal. E tribos são o contrário de movimentos revolucionários. Tribos são como clubes: têm regras, hierarquias, votos de exclusão.
O comunismo que vale a pena construir é aquele que consegue acolher a dúvida. Que consegue dialogar com quem discorda sem transformar a discordância em excomunhão. Que consegue ler criticamente até aquele pensador que tem posições problemáticas, exatamente porque sabe como extrair a potência de qualquer reflexão, mesmo aquela que vem de quem não pensa como você.
A Performance da Revolução
Tem algo visceralmente deprimente em ver pessoas compartilhando memes sobre a revolução enquanto sua fonte de renda vem da replicação de conteúdo em plataformas de vigilância capitalista. Há uma desconexão fundamental entre a pose revolucionária e a realidade material dos produtores que a vendem.
Não estou dizendo que é impossível estar dentro do sistema e trabalhar contra ele. Estou dizendo que essa ambiguidade deveria ser assumida honestamente, não transformada em performática conquista moral.
O trabalho imaterial no capitalismo contemporâneo é particularmente sedutivo porque oferece a ilusão de autonomia. Você é um produtor! Você é um criador! Você controla seu conteúdo! Exceto que você não controla o algoritmo, a monetização, as condições de permanência na plataforma. E quando você transforma sua produção em polêmica política, em cancelamentos e guerras de influenciadores, você está alimentando exatamente a máquina que deveria ser combatida.
A Alternativa Possível
Então qual é a saída? Não é renúncia total ao engajamento com redes sociais. Seria ingenuidade imaginar que na segunda década do século XXI alguém constrói movimento político relevante sem passar por onde as pessoas estão.
A saída é honestidade. É admitir que qualquer um que está nas redes sociais está participando dessa contradição. Que não há pureza possível. E, partindo dessa premissa, construir reflexão que trabalhe as contradições em vez de escondê-las atrás de poses.
É também recuperar a humildade. Não aquela humildade cristã que mascara superioridade intelectual. A humildade genuína de reconhecer que você pode estar errado. Que o colega que pensa diferente pode ter razão em aspectos que você não conseguiu enxergar. Que a construção coletiva exige tolerância para com a diferença, inclusive e especialmente quando essa diferença incomoda.
E, acima de tudo, é devolver o comunismo ao que deveria ser: não uma identidade, mas uma prática. Não uma marca de superioridade moral, mas uma estratégia para transformação. Não o que você consome, mas o que você faz.
Leitura Obrigatória
Se este texto ressoou com você (ou melhor, se ele te irritou— porque textos incômodos costumam fazer mais efeito), recomendo a reflexão que desenvolvi em postagem anterior sobre o dogmatismo boutique que assola a esquerda digital. Leia o guia “Guia Webcomunista de Boutique Dogmatismo e Pureza” — lá desenvolvo essa crítica com mais exemplos concretos e menos diplomacia.
A verdadeira revolução não acontece quando todos concordam. Acontece quando pessoas com visões diferentes conseguem trabalhar juntas apesar das divergências. Nesse sentido, qualquer movimento que funcione através de exclusão e purismo é reformista demais, seja qual for sua retórica.


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