“Ainda Não”: O Mito da Mentalidade de Crescimento Dentro de um Sistema Que Nega Crescimento

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Introdução: A Mentira Reconfortante

Deixe-me contar algo que a classe dominante adora que você acredite: que suas habilidades foram desenvolvidas, não herdadas. Que o fracasso é apenas um “ainda não”. Que se você não consegue subir na vida, é porque sua mentalidade está errada, e não porque o sistema foi arquitetado para que você não suba.

Essa é a beleza da ideologia contemporânea do desenvolvimento pessoal. É tão reconfortante acreditar que tudo depende apenas de você. Significa que ninguém precisa se sentir culpado. Os ricos podem dormir tranquilo: você fracassou porque tinha mentalidade fixa, não porque nasceu em uma favela enquanto eles herdaram acesso ao capital cultural.

Mas aqui está a verdade que querem esconder: a própria ideia de que você pode desenvolver suas habilidades infinitamente é um luxo de classe. E como toda coisa bonita sob o capitalismo, é um luxo que começa a partir de uma base muito diferente dependendo de onde você nasceu.

O Capital Cultural: A Herança Que Não Aparece nos Documentos

Há uma razão pela qual Pierre Bourdieu — sociólogo que ninguém cita em posts de desenvolvimento pessoal — focou tanto em algo chamado “capital cultural”. E não era para ser inspirador.

O capital cultural é simples: são as habilidades, conhecimentos, valores e comportamentos que você herda simplesmente por nascer em uma certa família. Se seus pais foram para a universidade, você já nasce compreendendo o “jogo” educacional. Você sabe como falar com professores, como estudar, o que é esperado. Se seus avós foram intelectuais, você cresceu cercado de livros, discussões sofisticadas, expectativas claras.

Mas se você nasceu em uma casa onde ninguém completou o ensino médio? Se português não é sua primeira língua educacional ou se você cresceu em um ambiente onde conversas “de qualidade” não eram prioridade? Então você não herda esse capital. E aqui está o pior: o sistema educacional e profissional foi inteiramente construído para favorecer quem herdou. E depois tem a desfaçatez de chamar isso de mérito.

Bourdieu mostrou isso: a escola brasileira não ensina apenas disciplinas. Ela separa quem tem capital cultural herdado de quem não tem. É uma máquina de reprodução de classe disfarçada de instituição meritocrática. Os que já sabem como jogar o jogo avançam. Os outros? Bem, culpa deles por terem “mentalidade fixa”.

A Ilusão da Oportunidade Igual: Números Que Ninguém Quer Ouvir

Vamos aos dados, porque números não mentem (embora as pessoas que os ignoram, sim).

De acordo com relatório da ONU, pessoas de baixa renda no Brasil levam até 9 gerações para sair da pobreza. Nove gerações. Isso é aproximadamente 270 anos de trabalho árduo, “mentalidade de crescimento” e “ainda não” para que seus descendentes talvez atinjam a renda média. Nos países ricos, são apenas 4 a 5 gerações. Mas lógico, ninguém quer falar disso em um seminário de produtividade.

Os 10% mais ricos controlam 52% da riqueza total. Os 60% mais pobres? 12%. E você, pessoa trabalhadora, buscando constantemente melhorar sua “mentalidade” e “habilidades”? Você está competindo neste jogo desde que nasceu 10 metros atrás da linha de saída.

Então quando alguém vem com aquela frase feita de que você precisa ter “mentalidade de crescimento”, o que realmente está acontecendo é uma transferência de culpa. Se você não consegue crescer, é porque seu cérebro está errado. Não porque o crédito é estrategicamente negado a certos grupos. Não porque a educação pública em sua região é sucateada. Não porque você precisa trabalhar enquanto estuda enquanto o filho do empresário faz estagiários remunerados.

Não. A culpa é sua (alerta de ironia).

Automatização de Habilidades: De Quem É o Tempo?

Aqui vem um dos pontos mais descarados da industria de desenvolvimento pessoal. Ela fala sobre “automatizar comportamentos” e “tornar as coisas hábitos para economizar energia cerebral”.

Lindo conceito. Absolutamente inútil se você não tem tempo.

Automatizar comportamentos exige repetição deliberada. Exige prática consistente. Exige… tempo livre. E aqui está a questão brutal: tempo livre é um privilégio brutal no capitalismo. Se você trabalha 8 horas, pega ônibus 2 horas por dia, cuida de filhos, limpa a casa, você não tem 2 horas para “praticar deliberadamente” um novo hábito.

Mas o empresário que herdou uma empresa? Ele tem consultores. Ele tem um psicólogo. Ele tem tempo para estruturar sua vida. Ele automatiza seus comportamentos com assistentes digitais e consultores de produtividade.

Então sim, tecnicamente a ciência da neuroplasticidade está certa: você pode desenvolver suas habilidades. Mas a probabilidade de você ter tempo e recursos para fazer isso depende muito mais de onde você nasceu do que de sua força de vontade. Mais uma vez, o sistema se disfarça de ciência e você internaliza como fracasso pessoal.

O Mito da Meritocracia: Quando a “Igualdade de Oportunidades” Não Existe

Vou ser claro: meritocracia é um mito.

Não é uma opinião. Um estudo do MIT descobriu que em empresas que enfatizam “meritocracia”, mulheres ganham menos que homens pelos mesmos trabalhos. Porque quando você estabelece como dogma que “tudo é mérito”, qualquer resultado que favorece o grupo já privilegiado passa a parecer justo. “Se há mais homens em posições de liderança, deve ser porque eles são melhores.” Não. É porque eles tiveram acesso a redes sociais diferentes desde a infância. Porque não esperavam que eles fizessem tarefas domésticas enquanto tentavam avançar.

Meritocracia só funcionaria se houvesse igualdade real de oportunidades. Não existe. Uma criança negra de escola pública periférica não concorre em “igualdade de condições” com uma criança branca de escola privada cujos pais já cursaram universidade. Não é teoria. É sociologia básica.

Mas a mentalidade de crescimento? Ela presume que tudo depende do seu esforço. Então quando você não consegue, deve ser porque não se esforçou o bastante. Porque sua mentalidade era fixa. Não porque o sistema foi desenhado por pessoas que lucram com sua privação.

A Recompensa Intrínseca: Quem Tem Luxo de Ter?

O discurso bonito do desenvolvimento pessoal fala muito sobre “recompensa intrínseca”. Fazer as coisas não pelo resultado, mas pelo processo. Amar o que faz.

Para milionários em startups de tecnologia, isso é lindo. Para a enfermeira que trabalha 12 horas por dia para pagar aluguel? A recompensa intrínseca dela é não virar desabrigada.

A dopamina, aquele neurotransmissor que supostamente você pode “hackear” com mentalidade correta? Ela funciona melhor quando você tem segurança básica. Quando você sabe que vai comer amanhã. Quando você não precisa contar os trocados para decidir qual refeição fazer.

Mas tudo bem. Continue praticando aquele hobby sem esperar resultado imediato. Continue acreditando que o processo é recompensador em si. Enquanto isso, o filho do banqueiro faz seu processo recompensador viajando para Bali para “encontrar a si mesmo” porque papa pagou.

Estrutura, Não Mentalidade: O Que Ninguém Quer Ouvir

Aqui está o ponto que destroi toda a indústria de desenvolvimento pessoal:

A estrutura determina a mentalidade, e não o contrário.

Você não tem mentalidade fixa. Você tem circunstâncias estruturais que fazem parecer racional ser pessimista. Se você já tentou dezenas de vezes sair de uma situação e falhou porque o sistema está montado contra você, não é irracional desistir. É aprender com a experiência.

A criança em uma favela perigosa que vê seus vizinhos sendo presos ou mortos não tem “mentalidade de crescimento bloqueada”. Ela tem uma análise racional de risco. Ela está em um lugar onde o “ainda não” pode significar morte. E você quer que ela pratique deliberadamente habilidades que não vão importar se ela for presa por estar no lugar errado na hora errada?

Pessoas de baixa renda não precisam de “mentalidade diferente”. Precisam de acesso a crédito. Precisam de educação que não seja sucateada. Precisam que seus filhos não tenham fome. Precisam de segurança. Precisam que seus esforços realmente gerem resultado.

Mas isso exigiria redistribuição. Exigiria que o capitalismo deixasse de ser, bem, capitalismo. Então em vez disso, vende-se a ilusão de que a culpa é sua. Da sua mentalidade. Do seu esforço insuficiente.

A Solução Que Ninguém Oferece: Transformação Estrutural

Se você quer realmente romper com a pobreza, não é desenvolvendo sua mentalidade que consegue. É transformando a estrutura.

Investimento em primeira infância que seja real. Educação pública que não separe ricos de pobres em cidades diferentes. Acesso real a crédito para quem não tem herança. Políticas que combatam discriminação ativa.

Mas nenhum livro de desenvolvimento pessoal vende assim. Por quê? Porque a solução estrutural não lucra. A solução estrutural exige menos livros, menos podcasts, menos consultores. A solução estrutural é política, coletiva e aterroriza aqueles que lucram com a desigualdade.

Então continuam vendendo “ainda não”. Continuam dizendo que você pode vencer se tiver mentalidade certa. Continuam culpabilizando os pobres por serem pobres. E continuam embolsando sua frustração em forma de curso, livro e workshop.

Conclusão: Desenvolvendo a Mentalidade Certa, Para Mudar o Jogo

Aqui está uma mentalidade de crescimento que realmente vale a pena: entender que você não está falhando. O sistema está funcionando exatamente como foi projetado.

Essa compreensão não é pessimismo. É realismo. É a base para ação coletiva real. É deixar de culpar seu cérebro e começar a questionar as estruturas que determinam seu cérebro.

Sim, suas habilidades podem ser desenvolvidas. A neurociência está certa nisso. Mas elas não se desenvolvem em um vácuo. Desenvolvem-se dentro de estruturas que facilitam ou bloqueiam esse desenvolvimento. E essas estruturas foram montadas, e continuam sendo mantidas, por pessoas que lucram com seu fracasso.

A questão não é se você consegue ter mentalidade de crescimento. A questão é: por quanto tempo você vai fingir que tudo que você não conseguiu fazer foi por fraqueza sua e não por design do sistema?

“Ainda não” é um conceito lindo. Mas “ainda não poder sair da pobreza em 9 gerações” é a realidade que todos preferem ignorar.

E você segue aqui, lendo posts sobre desenvolvimento pessoal, achando que a culpa é sua.


Se você quer aprofundar a crítica à ideologia do desenvolvimento pessoal e como ela serve ao capitalismo, recomendo ler Mindset: A nova psicologia do sucesso” de Carol Dweck, mas com olhos críticos. Dweck desenvolveu a teoria genuinamente baseada em pesquisa neurocientífica real, mas seus conceitos foram apropriados pela indústria de coaching capitalista, que removeu toda a contextualização sobre privilégio estrutural.

Ou melhor ainda: estude economia política, leia Bourdieu sobre capital cultural, e entenda por que a verdadeira mudança é coletiva e estrutural, não individual e de mentalidade.

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