A Farsa da Estabilidade – Por que as Crises São a Norma, Não a Exceção

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Vocês acham que a bolha das “cripto-tulipas” foi original? Que ingenuidade adorável. Sentem-se, peguem um café (se o preço ainda permitir), e deixem o Traidor da Classe contar uma história do século XVII que explica, em detalhes sórdidos, por que vocês perdem dinheiro hoje. Não falaremos de um algoritmo complexo ou de uma blockchain revolucionária, mas de algo ridiculamente simples: uma flor. A história da primeira, e talvez mais pura, bolha especulativa da história moderna: a Mania das Tulipas.

Em seu livro “Crash: Uma Breve História da Economia”, Alexandre Versignassi nos guia pela Holanda do século XVII, um império comercial em seu auge, para mostrar como a ganância humana, quando turbinada pelo capital, pode transformar qualquer coisa em um instrumento de especulação febril. A protagonista é a tulipa, uma flor exótica recém-chegada da Turquia que rapidamente se tornou um símbolo de status entre a elite europeia. O estopim da loucura, no entanto, foi um elemento imprevisível: um vírus. Este mosaico viral, ao infectar a planta, danificava seu pigmento, criando pétalas com listras e padrões de cores únicos. Uma flor doente, para a botânica; uma obra de arte rara, para o mercado. A variedade mais cobiçada, a Semper Augustus, tornou-se o Santo Graal. Em 1624, um único bulbo dessa tulipa podia ser trocado por uma mansão nos canais de Amsterdã.

O que se seguiu foi um manual de instruções para todas as bolhas futuras. O valor da Semper Augustus puxou para cima o preço de todas as outras tulipas, mesmo as mais comuns. A lógica do mercado deixou de ser a apreciação de um bem de luxo para se tornar a pura e simples especulação. As pessoas não compravam mais as flores para plantá-las, mas sim na esperança de revendê-las por um preço maior. Como Versignassi descreve, o mercado evoluiu para um ponto onde nem mesmo os bulbos físicos eram trocados, mas sim contratos de papel que davam direito a um bulbo na primavera seguinte. Eram os primeiros “derivativos” da história, negociados freneticamente em tavernas e becos.

Um trabalhador comum podia acordar sem um tostão, pegar um empréstimo pela manhã para comprar um contrato de tulipa, vendê-lo por um lucro de 10% à tarde, pagar o empréstimo com juros e ir dormir mais rico. Era dinheiro fácil, criado do nada. Isso soa familiar? É o mesmo mecanismo de “alavancagem” que os bancos de investimento usaram para quase destruir a economia global em 2008. É a mesma promessa de riqueza sem esforço que atrai milhões para esquemas de pirâmide e para a especulação com criptomoedas sem fundamento.

O sistema capitalista, em sua essência, não recompensa a produção de valor real, mas a capacidade de especular sobre o valor futuro das coisas. A busca incessante por lucro transforma qualquer ativo – seja uma flor, uma casa, uma ação de empresa ou um token digital – em uma ficha de cassino. O preço se descola completamente de qualquer fundamento racional e passa a ser movido puramente pela psicologia de manada, pela ganância e, acima de tudo, pelo medo de ficar de fora (o famoso “FOMO” – Fear Of Missing Out).

O problema, meus caros, é que a música uma hora para. Como Versignassi aponta de forma brilhante, “otários também são um recurso finito”. A bolha das tulipas só se sustentaria se os preços subissem para sempre, o que exigiria um fluxo infinito de novos compradores dispostos a pagar cada vez mais caro. Quando a desconfiança se instalou – rumores de fraudes, excesso de contratos, e a simples percepção de que os preços eram absurdos, os compradores desapareceram. A bolha estourou em fevereiro de 1637, e os preços despencaram mais de 95% em questão de semanas. Contratos que valiam mansões viraram pó. Fortunas foram dizimadas da noite para o dia.

E aqui vem a lição mais importante, a que os livros de história liberais convenientemente esquecem de enfatizar. Quem pagou a conta? Os artesãos, os pequenos comerciantes, os trabalhadores que venderam suas ferramentas e casas para entrar no jogo. Os grandes mercadores e a elite financeira, embora tenham tido perdas, tinham capital suficiente para absorver o choque. O governo holandês precisou intervir, não para punir os especuladores, mas para estabilizar o sistema, perdoando dívidas e mediando disputas para evitar o colapso total do comércio. A estrutura de poder permaneceu intacta. A riqueza, no final do ciclo, apenas se reconcentrou.

Não se enganem: as crises não são falhas no sistema. Elas são o sistema. São o mecanismo periódico pelo qual a riqueza é transferida da base da pirâmide para o topo. A bolha infla, atraindo o capital dos pequenos com a promessa de ganhos fáceis. Quando ela estoura, os ativos são liquidados a preços de banana e comprados pelos grandes capitalistas que tinham “pólvora seca” para aproveitar a liquidação. O Estado então intervém para socializar os prejuízos, resgatando as instituições “grandes demais para quebrar” com o dinheiro dos impostos pagos por você, enquanto os lucros da fase da bolha foram privatizados. É um ciclo perfeito de expropriação.

Entender a Mania das Tulipas é entender a lógica fundamental do capitalismo financeiro. É perceber que a instabilidade não é um bug, mas uma feature. É a ferramenta que garante que, no longo prazo, a casa sempre ganhe. Aceitar isso não é pessimismo, é pragmatismo. É o primeiro e mais crucial passo para parar de ser a vítima da vez.

No próximo post, vamos sair da defensiva teórica para a prática. Vamos aprender com os velhos mestres do investimento como construir uma fortaleza contra essa insanidade coletiva. Vamos desvendar as estratégias do “Investidor Inteligente” e descobrir como usar a própria irracionalidade do mercado a nosso favor.


📚 Para mais informações sobre o tema – LEIA: Crash: Uma breve história da economia – Alexandre Versignassi

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