Os Filhos de Zilda: Quando a Arte Anestesia e a Estrutura Perpetua

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Deixe-me contar algo que a indústria cultural e a classe dominante não querem que você saiba: a arte pode ser tanto um chamado para a revolução quanto um lindo anestésico para mantê-lo adormecido enquanto a máquina esmagadora do capitalismo segue seu curso.

Dias desses, o YouTube me indicou um show ao vivo do Skank tocando seus primeiros discos. Resolvi assistir. E a música Baixada News chamou minha atenção de um jeito perturbador. Depois de duas décadas, a música ainda grita uma pergunta que ninguém quer responder: e os filhos de Zilda?

A Ficção que Revela a Realidade Estrutural

Zilda é uma mulher de 28 anos, moradora da Baixada Fluminense, mãe de cinco filhos, abandonada por um ex-trocador de ônibus que a “trocou por uma dama que passou pela roleta”. Ela acorda às cinco da manhã para pescar caranguejos no mangue de Magé, na Baía de Guanabara. Uma vida de luta diária, sim. Mas também de invisibilidade planejada.

Aqui está o que a maioria não quer pensar: Zilda não é exceção. Zilda é a regra.

Se Zilda tinha 28 anos em 1998, quando a música foi lançada, hoje ela teria cerca de 55 anos. Seus cinco filhos deveriam estar entre os 25 e 35 anos. E aqui vem o incômodo: o cenário social que a aprisionava permanece praticamente intacto. Os dados do Brasil contemporâneo confirmam isso de forma desconfortável.

Segundo o Observatório Brasileiro das Desigualdades de 2025, o 1% mais rico ganha 30,5 vezes mais que os 50% mais pobres. Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro especificamente, cerca de 2,2 milhões de mulheres vivem em pobreza ou extrema pobreza, sendo 1,6 milhão delas negras. Na Baixada Fluminense onde Zilda vive, 63% das casas chefiadas por mulheres negras com filhos estão abaixo da linha da pobreza, com renda de apenas US$ 5,5 per capita ao dia.

Isso significa que a vida dos filhos de Zilda provavelmente não é muito diferente da de sua mãe. E os netos de Zilda? Bem, segundo a OCDE, levariam nove gerações para que os descendentes de um brasileiro entre os 10% mais pobres atingissem o nível médio de rendimento do país. Nove gerações. Já pensou sobre isso: 270 anos de luta apenas para alcançar a mediocridade.

O Ciclo Pegajoso: Quando o Sistema é Mais Forte que a Resiliência Individual

A resiliência de Zilda é real. Mas ela é exatamente o problema que o sistema quer que você celebre.

Vou ensinar você como o capitalismo funciona nessa situação: ele transforma a miséria estrutural em narrativa inspiradora. A música de Skank, com toda sua melodia envolvente, transforma a luta de Zilda em algo quase poético. “Catando a vida pelas patas, dando tapas no destino, arregaçar as mangas no mangue” – sons bonitos que mascaram uma realidade brutal: a ausência total de escolhas.

A culpa é do capitalismo, não de Zilda. Mas o sistema é inteligente o suficiente para fazer você achar que a força dela é inspiradora em vez de indignante.

Aqui está o que o sistema não quer que você compreenda: o ciclo intergeracional de pobreza no Brasil não é um fracasso das famílias pobres, é uma característica do sistema capitalista.

O DIEESE e outros institutos documentam que famílias pobres lidam com uma “elasticidade intergeracional de renda” de 70% no Brasil. Isso significa que se o pai de uma criança ganha duas vezes menos que outro pai, essa criança terá, em média, rendimento 70% menor que a criança comparada – uma persistência da pobreza que ultrapassa qualquer narrativa de “meritocracia.” O sistema não foi feito para que os filhos de Zilda ascendam. Foi feito para que eles permaneçam exatamente onde estão.

A Arte Como Ferramenta Dupla: Emancipação ou Controle?

Aqui vem a parte incômoda sobre a qual ninguém quer pensar.

Baixada News é uma denúncia? Sim. Mas é também uma anestesia perfeita. Você pode ouvir a música, chorar de emoção diante da resiliência de Zilda, compartilhar nos stories, dançar em uma festa – e ainda assim, absolutamente nada muda. A estrutura permanece ilesa.

O capitalismo é brilhante nisto: ele absorve a crítica, a estetiza, a transforma em entretenimento, e você segue dormindo.

A indústria cultural atual – aquela que o YouTube coloca para você assistir em um fim de semana – funciona como um mecanismo de controle social sofisticado. Como sugere Herbert Marcuse em sua análise crítica, a arte e a cultura são constantemente cooptadas para reforçar as estruturas dominantes. O belo é definido por uma lógica de mercado. A diversidade é padronizada. A potência crítica é esvaziada.

A arte pode incomodar, questionar e provocar reflexão genuína. Ou pode ser consumida superficialmente, como trilha sonora para uma vida de alienação. O que determina isso é se você permite que a mensagem toque algo em você ou se deixa passar, como mais um ritmo agradável em uma playlist.

A verdade incômoda: a maioria das pessoas ouve Baixada News e dança. Só isso.

A Realidade: Nove Gerações de Luta Enquanto a Arte Nos Distrai

Deixe-me ser claro sobre os dados. Não há romantização aqui, apenas números frios de instituições como IBGE, OCDE e Casa Fluminense:

30% da população brasileira vive com renda abaixo da linha de pobreza. Esses não são abstratos. São pessoas. São os filhos e filhas de Zilda. São pessoas que acordam às cinco da manhã, como ela, enfrentando jornadas exaustivas enquanto a sociedade continua ignorando que seus filhos crescem em um contexto de precariedade educacional, de saúde inadequada, de oportunidades praticamente inexistentes.

Mulheres negras chefes de família ganham apenas 43% do rendimento de homens não negros. Esse é um abismo estrutural, não uma questão de “força de vontade.” A discriminação é sistemática. Está inscrita nas próprias estruturas do mercado de trabalho, da educação, da saúde.

A mobilidade social no Brasil é a segunda pior entre 30 países analisados pela OCDE. Mais de um terço dos nascidos entre os 20% mais pobres permanecem na base da pirâmide. Apenas 7% conseguem alcançar os 20% mais ricos. Enquanto isso, a arte nos conta histórias bonitas sobre resiliência.

A Pergunta Que Ninguém Quer Fazer: O Que Você Faz Com a Mensagem?

Baixada News nos coloca diante de uma escolha incômoda.

Você pode deixar a mensagem passar despercebida, dançar distraído enquanto a estrutura perpetua a miséria. Ninguém vai julgá-lo. É mais fácil. É mais bonito. É mais confortável.

Ou você pode permitir que a arte o toque de uma forma genuína, que o provoque, que o force a enxergar o sistema que mantém Zilda, seus filhos e milhões de outras mulheres presas em um ciclo que duraria nove gerações.

A diferença está em uma coisa: ação coletiva versus alienação individual.

Entender o jogo é apenas o primeiro passo. A verdadeira luta é coletiva. Organize-se. Não espere por políticas públicas que virão lentamente demais. Não confie em narrativas de “oportunidade igual” quando os dados mostram que a desigualdade é estrutural.

Compreenda que um sistema que força mulheres a acordarem às cinco da manhã para pescar caranguejos em uma baía poluída enquanto criam cinco filhos sozinhas não é um fracasso que precisa ser tolerado com inspiração. É um crime que precisa ser abolido.

A pergunta que fica não é “qual é a história de Zilda?” Você já sabe essa resposta. A verdadeira pergunta é: o que você vai fazer para que os filhos e filhas de Zilda tenham um futuro diferente?

Porque enquanto você dança ouvindo Baixada News, sem levantar um dedo, a máquina capitalista segue triturando silenciosamente mais Zildas todos os dias.

E isso, meus queridos, é inadmissível.

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