Vocês acham que a revolução se faz com textão no Twitter e cancelando o colega que leu o autor errado? Que ingenuidade adorável. Deixe-me contar algo que a vanguarda do proletariado digital não quer que você saiba: a pureza ideológica é o melhor sonífero que o capitalismo já inventou para a esquerda. Enquanto vocês se afogam em debates intermináveis sobre quem é o verdadeiro herdeiro de Lênin, o sistema continua rindo a caminho do banco.
O traidor da classe ensina, e a lição de hoje é sobre a armadilha sedutora do dogmatismo. Já que estamos aqui, vamos aprender as regras desse jogo de cartas marcadas.

O Olimpo dos Puros: A Competição Pela Santidade Revolucionária
Minha primeira incursão no que se poderia chamar de “esquerda organizada” foi um espetáculo deprimente. Não era um debate de ideias para mudar o mundo, mas um concurso de vaidades para ver quem tinha a carteirinha de “mais comunista”. Era uma disputa feroz, travada nos corredores da universidade e, hoje, nos campos de batalha dos comentários do Instagram. Aquele que citasse o trecho mais obscuro de uma obra pouco conhecida de Marx ganhava a medalha de revolucionário do dia. O prêmio? Absolutamente nada, além de uma inflada sensação de superioridade moral.

Essa busca incessante por uma pureza inatingível cria uma atmosfera tóxica e, francamente, entediante. A intransigência vira virtude, e o bom humor é visto como um desvio burguês. O resultado é um movimento que se fecha em si mesmo, onde a principal atividade é fiscalizar a coerência alheia. O “webcomunista” se torna um guardião do templo, um sommelier de ortodoxia, mais preocupado em apontar as contradições dos outros do que em construir algo concreto. A culpa é do capitalismo, não sua, mas a sua performance de pureza também não ajuda em nada.
A Armadilha do Iluminado: “Eu Tenho a Verdade, Vocês São os Alienados”
O dogmatismo leva a uma perigosa armadilha cognitiva. O militante, após ler três ou quatro livros, começa a se enxergar como um guia iluminado, um Moisés de apartamento que desceu do monte com a tábua da verdade absoluta. Ele não tem mais opiniões; ele tem certezas. E quem discorda dele não é um camarada com uma perspectiva diferente, mas um pobre alienado, uma massa de manobra da ideologia dominante que precisa ser “conscientizada”.
Essa autoimagem de excepcionalidade é incrivelmente sedutora. Ela oferece um roteiro simples para um mundo complexo: de um lado, os puros e esclarecidos (ele e seu pequeno círculo); do outro, todos os demais. O problema é que essa postura impede a autocrítica, que deveria ser a principal ferramenta de um socialista. Os socialistas deveriam ser os críticos mais ferozes das experiências socialistas do século XX. Mas a recusa em lavar a roupa suja em público, o medo de “dar armas ao inimigo”, apenas fortalece a narrativa da direita.
Ao se colocar nesse pedestal de superioridade, o webcomunista se isenta da tarefa mais difícil: dialogar com o diferente e construir pontes. É muito mais fácil pregar para convertidos e chamar o resto do mundo de gado. É cômodo, é seguro e, acima de tudo, é completamente ineficaz.
A Coerência como Desculpa: Discurso Radical, Prática Inofensiva
“Ah, mas você critica o capitalismo usando um iPhone!” – essa é a acusação mais batida e inútil que existe. É óbvio que a luta anticapitalista é travada dentro do capitalismo. Não existe um “lado de fora” para onde possamos nos retirar e planejar a revolução em paz. A contradição não é o problema. O problema, meus caros, é a coerência excessiva.
Quando o discurso radical de alguém é perfeitamente coerente com uma prática que não gera nenhum atrito, nenhum incômodo, nenhuma sabotagem ao sistema, isso é um sinal de alerta. Significa que o discurso é apenas uma performance, um acessório de estilo. É como usar uma camiseta do Che Guevara comprada na Renner. A verdadeira questão não é se você tem um iPhone, mas se a sua prática se resume a tuitar nesse iPhone.

Ser anticapitalista hoje é usar o sistema contra ele mesmo. É aprender as regras do jogo para poder quebrá-las. É entender de investimentos para proteger a si e aos seus, enquanto se organiza para destruir o cassino. A ausência de uma prática que desafie o sistema, por menor que seja, revela que a radicalidade é apenas uma fantasia de poder. É um hobby, não um compromisso.
No final, a ilusão de pureza e o dogmatismo são os melhores amigos do status quo. Eles nos mantêm ocupados em nossas bolhas, brigando por migalhas de superioridade moral, enquanto a verdadeira luta acontece lá fora. Então, da próxima vez que você sentir a tentação de corrigir a gramática de um post em vez de organizar uma greve, lembre-se: o traidor da classe está de olho. E ele não está impressionado.


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