Vocês já repararam como tem gente que acredita que ter a razão é tudo? Que basta conhecer a verdade para automaticamente estar na frente, para vencer qualquer disputa, para transformar o mundo? Pois é. Esse é um dos maiores equívocos que rondam o debate político e social hoje no Brasil.
Deixe-me contar algo que aprendi observando esse circo por dentro: a verdade sozinha não muda nada. Ela não derruba estruturas, não mobiliza massas, não transforma realidade. É apenas uma ferramenta entre muitas — e, curiosamente, nem sempre a mais poderosa.

O Fetiche da Verdade Absoluta
A internet brasileira está infestada de pessoas que se posicionam como portadores da verdade revelada. Não importa se são influenciadores políticos, pregadores digitais ou economistas de plantão — todos parecem convencidos de que dominam A Verdade com “V” maiúsculo, aquela verdade definitiva, incontestável, quase divina.
O problema? Essa postura é perigosamente parecida com a dos pregadores evangélicos que invadiram a política brasileira nos últimos anos. Eles também vendem certezas absolutas, profecias infalíveis, revelações que supostamente vêm de uma fonte superior — seja Deus, seja “a ciência”, seja “o método correto”.
Nos últimos anos, vimos o crescimento exponencial de igrejas neopentecostais no Brasil. Entre 2000 e 2022, os evangélicos saltaram de 15,4% para 26,9% da população. Por que isso aconteceu? Não foi porque essas igrejas tinham a verdade teológica mais consistente. Foi porque construíram poder político real, ocuparam territórios, criaram redes de solidariedade (ainda que problemáticas) e ofereceram respostas imediatas para problemas concretos.
Enquanto isso, setores progressistas ficaram presos em debates sobre quem tinha a interpretação mais correta, quem conhecia melhor os textos clássicos, quem dominava o jargão adequado. Perderam completamente o timing da comunicação digital, deixaram que a direita ocupasse as redes sociais e ainda se acharam intelectualmente superiores por isso.
A Armadilha do Esclarecimento
Existe uma crença profundamente enraizada de que educar as pessoas sobre a verdade levará automaticamente à ação política transformadora. É a velha fantasia iluminista: basta acender a luz do conhecimento que as trevas da ignorância se dissiparão e todos abraçarão a causa certa.
Sério? Olhem ao redor. Temos mais acesso à informação do que em qualquer outro momento da história humana. E o que vemos? Pessoas educadas, com diploma universitário, defendendo ideias absurdas. Gente com acesso a dados defendendo políticas comprovadamente prejudiciais aos seus próprios interesses.
O avanço do conhecimento técnico e científico no século XX não produziu uma sociedade mais justa. Produziu campos de concentração construídos com eficiência industrial. Produziu bombas atômicas. Produziu sistemas de vigilância em massa. O problema nunca foi a falta de verdade disponível — foi sempre sobre quem tem poder para definir qual verdade importa.
No Brasil, 53% das pessoas mudaram seu comportamento nas redes sociais por motivos políticos, e 44% evitam comentar sobre política para não brigar com amigos e familiares. As pessoas não precisam de mais “verdades” jogadas na cara delas. Elas precisam entender que têm poder para mudar a própria realidade.
Como a Realidade Realmente Funciona
Aqui vai uma verdade incômoda que poucos querem admitir: a realidade não se revela de imediato. O que nossos olhos veem, o que nossa experiência cotidiana nos diz, frequentemente está errado ou, no mínimo, incompleto.
Durante séculos, a humanidade “sabia” que o Sol girava ao redor da Terra. A evidência estava ali, todos os dias, visível a olho nu. A percepção imediata era clara. E estava completamente errada.
Da mesma forma, quando você olha para o sistema econômico brasileiro, a percepção imediata pode ser: “empresários geram empregos, portanto merecem lucros altos”. Parece lógico, não? Só que essa é a superfície brilhante que ofusca o que está por baixo: a concentração de riqueza, a exploração do trabalho, a transferência de valor.
Compreender a realidade exige ir além do senso comum. Mas — e aqui está o pulo do gato — isso não se faz jogando termos técnicos na cabeça das pessoas. Não adianta chegar no trabalhador que pega duas conduções e dizer “você precisa entender a mais-valia”. Ele já entende. Ele vive isso todo dia. Só não tem as palavras bonitas que a academia usa.
Múltiplas Verdades, Múltiplos Caminhos
Quer saber de uma coisa? Diferentes correntes de pensamento capturam diferentes aspectos da verdade sobre nossa sociedade. Os liberais captaram algo verdadeiro sobre a importância da liberdade individual (mesmo que usem isso para defender o direito de explorar). Os estruturalistas captaram verdades sobre como as estruturas moldam comportamentos. Até os pós-modernos, que tanto odeiam citar, captaram verdades sobre como o poder constrói narrativas.
Nenhuma corrente de pensamento tem o monopólio da verdade. E sabe por quê? Porque a sociedade é um objeto complexo, em constante movimento, que se transforma enquanto tentamos entendê-la. O que era verdade ontem pode não ser amanhã. As categorias que funcionavam para analisar o Brasil de 1960 não necessariamente funcionam para o Brasil de 2025.
Para entender o avanço neopentecostal no Brasil, por exemplo, não adianta simplesmente dizer “religião é o ópio do povo” e achar que explicou tudo. Você precisa entender teologia da prosperidade, precisa entender a falência dos serviços públicos, precisa entender a solidão urbana, precisa entender como essas igrejas constroem comunidade onde o Estado abandonou. Você precisa conhecer profundamente aquilo que critica.
O Elemento Decisivo É Político
Agora chegamos ao que realmente importa: ter a verdade não te coloca na frente politicamente. Saber mais não é o mesmo que poder mais. A história está cheia de exemplos de pessoas que estavam certas e perderam, e de pessoas que estavam erradas e venceram.
O crescimento dos influenciadores políticos no Brasil não aconteceu porque eles tinham as melhores análises. Pablo Marçal não foi parar entre os primeiros colocados nas pesquisas de São Paulo porque dominava teoria política. Nikolas Ferreira não se tornou o deputado federal mais votado de 2022 porque tinha as propostas mais consistentes. Eles entenderam algo fundamental: política é sobre construir poder, não sobre revelar verdades.

E aqui está o problema dos que se acham donos da verdade: eles confundem luta política com evangelização. Acham que basta pregar a palavra certa, usar o argumento correto, citar a fonte adequada, e as massas virão. Ficam esperando que as pessoas “despertem” para a verdade revelada, como se fossem pregadores aguardando a segunda vinda.
Enquanto isso, a direita constrói poder. Ocupa espaços. Cria redes. Oferece soluções (ainda que falsas) para problemas reais. E vence.
Conhecer Não É o Mesmo Que Transformar
Olhem para o caso das igrejas neopentecostais de novo. Elas abriram 17 novos templos por dia no Brasil em 2019. Em 2021, 52% dos estabelecimentos religiosos do país eram evangélicos pentecostais ou neopentecostais. Isso não aconteceu porque elas tinham a melhor teologia. Aconteceu porque elas fizeram trabalho de base, construíram presença territorial, ofereceram respostas imediatas.
Enquanto isso, quantos setores progressistas focaram em produzir a análise mais sofisticada, o texto mais bem referenciado, a crítica mais certeira — e perderam completamente a conexão com as pessoas reais vivendo vidas reais?
As pessoas não precisam primeiro entender toda a teoria para depois agir. Elas precisam entender politicamente que podem mudar a própria situação. Precisam sentir que têm poder coletivo. Precisam ver resultados concretos. O resto — incluindo a compreensão teórica mais profunda — pode vir depois, durante a luta, não antes dela.
A Verdade É Construção, Não Revelação
Deixe-me ser direto: não existe “A Verdade” pronta, esperando para ser descoberta como se fosse um baú de tesouro enterrado. A verdade é uma construção humana, coletiva, histórica. Ela tem critérios, tem métodos, tem rigor — mas não é absoluta, não é imutável, não é propriedade de ninguém.
Quando você trata a verdade como se fosse uma revelação divina, você transforma política em religião. E aí você perde. Porque política não é sobre converter infiéis — é sobre construir poder para transformar estruturas.
O Brasil precisa de menos gente achando que tem a verdade e mais gente disposta a construir poder popular real. Precisa de menos pregadores e mais organizadores. Precisa de menos debates sobre quem está mais certo e mais ação concreta para mudar as condições materiais de vida das pessoas.
Na Prática, Como Fica?
Então o que fazer? Simples — e ao mesmo tempo complicado:
Primeiro: pare de achar que você tem a verdade absoluta. Você tem uma perspectiva, uma análise, uma compreensão. Ela pode estar certa em muitos aspectos. Mas ela é limitada, parcial, sujeita a revisão.
Segundo: entenda que conhecimento é importante, mas não é suficiente. Você precisa construir poder político. E isso se faz na organização, na mobilização, na construção de alianças, na ocupação de espaços, na criação de redes de solidariedade.
Terceiro: conheça profundamente o que você critica. Quer entender por que as pessoas seguem determinados líderes ou ideias? Estude essas ideias a sério, não apenas para ridicularizá-las, mas para entender que necessidades reais elas estão (ainda que falsamente) atendendo.
Quarto: comunique-se de forma que as pessoas entendam. Não adianta dominar todo o vocabulário técnico se você não consegue traduzir isso para a linguagem das pessoas reais. Os melhores comunicadores não são os que usam mais jargão — são os que conseguem explicar coisas complexas de forma simples.
Quinto: lembre-se sempre que o objetivo não é revelar a verdade, mas transformar a realidade. E transformação vem da luta política organizada, não da contemplação esclarecida.

Conclusão: Pare de Pregar, Comece a Organizar
No final das contas, a grande questão não é “quem tem a verdade?”. A grande questão é “quem tem poder para transformar a realidade?”.
E poder não vem de ter as análises mais sofisticadas. Vem de construir organização popular, de ocupar território, de criar alternativas concretas, de mobilizar pessoas para lutar por seus interesses coletivos.
Então pare de se comportar como pregador esperando que as massas despertem para a verdade revelada. A transformação social não é uma questão de esclarecimento — é uma questão de luta política.
E se você realmente quer mudar as coisas, precisa entender isso: a verdade é importante, mas ela é apenas uma ferramenta. O que realmente importa é o que você faz com ela.


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